É preciso se libertar de toda experiência.
Dispensar a falsa reverência
Que jocosamente de etiqueta se travestia
Em normas CLT, ABNT e da Academia
Para a atrofia da massa muscular, cerebral.
É preciso morder e cheirar feito animal,
Abdicar regra e manual.
Ser corno e bebericar no literal.
Ser arquiteto de um prostíbulo ideal.
Não vá mijar na história pela ditadura
De linhas vazias molhadas no traçado de alvura.
Primeiro já deve ter sido torto
Para que não volte a nascer morto.
Suspender o paralelismo, o paunoculismo
Sem afagar o louco e suicida saudosismo.
Comece dividindo tudo em capítulos infinitos.
Mas que não impliquem na chatice
De um apêndice ou de um índice.
Para eles (os momentos): escolha títulos bonitos.
Faça com que o glossário
Para não ser desmerecido
Tenha que ser sempre lido
Como as contas de um rosário.
Como as louças do armário.
Como o orçamento diário.
As ilustrações precisam envelhecer,
Contendo em cada rodapé flutuante
Citações acomodadas em risos audíveis.
A introdução não precisa se estender
Pode ser breve, num rompante.
Vendo o prólogo assoviar canções inesquecíveis.
Terá, de certo, mudas edições comentadas.
Traduzidas, porém, por duas línguas juramentadas.
Deve ser delicadamente impresso
Em nobre e não perecível gramatura.
Conter arabescos viris ao invés de brochura.
A escrita, de um estilo devasso e avesso,
Forjada na saliva das madrugadas,
Com cheiro de nanquim e letras douradas.
Ás vezes pode ser julgado pela capa
Como se fosse cara, contanto que seja dura.
Para conservar da carne o que escapa
Do conteúdo, em sua forma mais pura.
E se te importar um final feliz,
Digo que pode ser lido de trás pra frente
Qualquer bom e clássico romance.
Veja bem. Agora o mais importante:
Dê a ele a primeira e única chance
De ser inteiro e completamente
Impublicável.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Detergere
Escoei
Feito espuma
De palavras não ditas
Pelo ralo da sua
Indecisão.
Íntegra e desintegrada
Pela polaridade
Deste teu profilático
E silencioso, des(p)ejo.
Feito espuma
De palavras não ditas
Pelo ralo da sua
Indecisão.
Íntegra e desintegrada
Pela polaridade
Deste teu profilático
E silencioso, des(p)ejo.
Temporal
A humilde idade escapa em gota.
E se instalando na parede decorada,
O oco de toda tinta, vai,
Do cimento, se avolumando em náuseas.
Amolecida e silenciosa, desbota.
A passagem líquida
Toda sôfrega e compassada
Rompe sem mesuras róseas
A rígida clausura do tempo...
E se instalando na parede decorada,
O oco de toda tinta, vai,
Do cimento, se avolumando em náuseas.
Amolecida e silenciosa, desbota.
A passagem líquida
Toda sôfrega e compassada
Rompe sem mesuras róseas
A rígida clausura do tempo...
domingo, 23 de outubro de 2011
Romântica
Em público, a mulher espreme o cravo do amado e expurga o acúmulo de romantismo. Ela contempla satisfeita, como quem colhe um lírio, o broto de secreção anelídeo que jaz no esmalte vermelho Madonna. Exibe a ele o seu troféu. É o exemplo mais exímio do amor carne e unha. Se ele não ama essa mulher, meu Deus, quem amaria?
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Explica o poema
Justo depois que misturei,
À minha maneira,
A clara e a gema...
Vem um chato, bem chato, e me pede:
"Me explica o poema?"
Não, nem vem.
Não quero, não.
Qual é o problema?
Porque ele é como um rio
Para quem rema.
Há quem se atire sem brio
Há quem tema o tema.
Mas não há quem não trema
Em respirar o dilema,
Essa brisa amena.
Faça um grande favor:
Sem amor,
Não me esprema!
À minha maneira,
A clara e a gema...
Vem um chato, bem chato, e me pede:
"Me explica o poema?"
Não, nem vem.
Não quero, não.
Qual é o problema?
Porque ele é como um rio
Para quem rema.
Há quem se atire sem brio
Há quem tema o tema.
Mas não há quem não trema
Em respirar o dilema,
Essa brisa amena.
Faça um grande favor:
Sem amor,
Não me esprema!
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Terapêutica
O céu está vermelho, e daí?
Meu caminhar é sem pressa,
Passo inteiro, ausente de morosidade.
Caminho como se todo o mundo,
Coubesse nesta cidade.
Esqueci de pendurar no ombro a vaidade.
E o todo da sensação me interessa.
Pois sou eu mesma a parte avulsa,
A minha, a outra metade, larga e convulsa.
Nas avenidas da minha unidade
Me instauro num sentindo tão profundo
Que o azul preferido me inunda a privacidade...
Talvez seja eu, um bicho do submundo
Que respire e cheire tudo o que invade.
Espreito o rosa do céu, que o laranja atravessa.
Absorvo gotas de tempestade
E pisadas calcanhares da via expressa,
Sinto tudo tudo o que me acessa
E comigo, apenas, me inundo.
Gosto de tudo que me tem o gosto oriundo
O cítrico gosto da cor que me expressa...
Não sei se é a morte ou a loucura que me expulsa
Porque a minha vida pulsa.
Meu caminhar é sem pressa,
Passo inteiro, ausente de morosidade.
Caminho como se todo o mundo,
Coubesse nesta cidade.
Esqueci de pendurar no ombro a vaidade.
E o todo da sensação me interessa.
Pois sou eu mesma a parte avulsa,
A minha, a outra metade, larga e convulsa.
Nas avenidas da minha unidade
Me instauro num sentindo tão profundo
Que o azul preferido me inunda a privacidade...
Talvez seja eu, um bicho do submundo
Que respire e cheire tudo o que invade.
Espreito o rosa do céu, que o laranja atravessa.
Absorvo gotas de tempestade
E pisadas calcanhares da via expressa,
Sinto tudo tudo o que me acessa
E comigo, apenas, me inundo.
Gosto de tudo que me tem o gosto oriundo
O cítrico gosto da cor que me expressa...
Não sei se é a morte ou a loucura que me expulsa
Porque a minha vida pulsa.
domingo, 11 de setembro de 2011
Distância
Quando maior a distância
Melhor me sentes
E mais intensamente.
Há acréscimo de espaço
Disponível que aumenta
A cada passo
Por onde fica impregnada
A minha ausência.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
sexta-feira, 4 de março de 2011
Soneto da Mancha de Carnaval
O samba de uma mulamba alegrete
Pernas de malabarista, confete
Os amores de salão sempre vão
Caem como as serpentinas no chão...
Sopros vazios desfilam no carpete
Um palhaço vadio, triste, reflete:
Solidão disfarçada em alegria
E a fome de Maria, que dormia...
Não há ali, gesto que o amor interprete
Sem traço de dor na fisionomia,
Sem fome básica de água e pão.
Tal era o pandemônio de pandeiro
Por ora, salve o coro milagreiro...
Mês depois, roga a praga no dinheiro.
Pernas de malabarista, confete
Os amores de salão sempre vão
Caem como as serpentinas no chão...
Sopros vazios desfilam no carpete
Um palhaço vadio, triste, reflete:
Solidão disfarçada em alegria
E a fome de Maria, que dormia...
Não há ali, gesto que o amor interprete
Sem traço de dor na fisionomia,
Sem fome básica de água e pão.
Tal era o pandemônio de pandeiro
Por ora, salve o coro milagreiro...
Mês depois, roga a praga no dinheiro.
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Do riso
Ganhou um vale-riso,
Nada poético
De tão frenético,
O Narciso...
Um riso malvado,
De teor enganado,
Escancarado
E indeciso.
Torço um arquétipo,
É carnaval forçado...
Escoa do estereótipo,
Arrojado,
Um riso amordaçado
De síndrome do "te piso".
Que engraçado!
Nada poético
De tão frenético,
O Narciso...
Um riso malvado,
De teor enganado,
Escancarado
E indeciso.
Torço um arquétipo,
É carnaval forçado...
Escoa do estereótipo,
Arrojado,
Um riso amordaçado
De síndrome do "te piso".
Que engraçado!
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Viva a poesia, viva!
É com muito orgulho que compartilho aqui a vitória da poesia. Uma vitória deliciosa que se deu por meio das mãos de um talentoso poeta amigo. Ele estará na Bienal com o relançamento do seu livro "Necrose" (que foi lançado em 5 de maio de 2010). E pode crer, vale a pena.

21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
17 de agosto, terça-feira, das 15h às 17h - Rua L Estande 44.
Exclusivamente, neste dia e horário você conhece o autor Welton de Souza (pode apostar que é um privilégio) e já pede o seu autógrafo.
Esta preciosidade também está disponível no site:
www.allprinteditora.com.br
Entrevista com o autor em:
http://www.poetasdevidro.wordpress.com
Claro, como não poderia deixar de mencionar, você encontrará meus comentários de marciana na orelha do livro. Foi uma grande honra para mim e uma peripécia do autor... Comprove!

21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
17 de agosto, terça-feira, das 15h às 17h - Rua L Estande 44.
Exclusivamente, neste dia e horário você conhece o autor Welton de Souza (pode apostar que é um privilégio) e já pede o seu autógrafo.
Esta preciosidade também está disponível no site:
www.allprinteditora.com.br
Entrevista com o autor em:
http://www.poetasdevidro.wordpress.com
Claro, como não poderia deixar de mencionar, você encontrará meus comentários de marciana na orelha do livro. Foi uma grande honra para mim e uma peripécia do autor... Comprove!
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Welton Souza
terça-feira, 27 de abril de 2010
Só
Travei os pulsos
Fechei com movimento
Cardíaco
Meu coração
Como se fosse um livro
Desejei ler
Menos arritmia
Em histórias sem fim
Nos pulos
Dos capítulos
Já não podia mais
Viver sem mim.
Fechei com movimento
Cardíaco
Meu coração
Como se fosse um livro
Desejei ler
Menos arritmia
Em histórias sem fim
Nos pulos
Dos capítulos
Já não podia mais
Viver sem mim.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Reconhecimento
É você o ouvido
Que escuta meus gemidos.
Sempre branco, alvo, aberto...
Abraçando este deserto,
Este coração perdido.
Encharcado na lágrima,
Tudo vê.
Incendiado pelo sorriso,
Tudo responde
E nada rejeita,
Seja feliz ou triste
A seita.
Isto não é chiste,
Papel querido.
És Edital da minha alma
Grande amigo.
Que escuta meus gemidos.
Sempre branco, alvo, aberto...
Abraçando este deserto,
Este coração perdido.
Encharcado na lágrima,
Tudo vê.
Incendiado pelo sorriso,
Tudo responde
E nada rejeita,
Seja feliz ou triste
A seita.
Isto não é chiste,
Papel querido.
És Edital da minha alma
Grande amigo.
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reconhecimento
Abismo
Sismo em mergulhar
Nesta insistente saudade
Tão tenra, tão não-mensurável.
Sensíveis são os abalos sísmicos,
Que suspendem os estudos físicos.
E caio
Na escuridão do meu quarto vazio.
Me afogando na recordação,
Em meu próprio escapismo.
Procuro em todo lugar
Onde ficou perdido seu olhar
Também A
________B
_________I
__________S
___________M
____________O
Nesta insistente saudade
Tão tenra, tão não-mensurável.
Sensíveis são os abalos sísmicos,
Que suspendem os estudos físicos.
E caio
Na escuridão do meu quarto vazio.
Me afogando na recordação,
Em meu próprio escapismo.
Procuro em todo lugar
Onde ficou perdido seu olhar
Também A
________B
_________I
__________S
___________M
____________O
Momento Eurístico
Sinto sua falta
Singelo sorriso.
Palavras que se encaixavam
[agora encaixotadas],
Tão perfeitas no meu ego
E suaves no meu eixo...
Uma síntese de almas
Sem carimbos nem tarifas
Sem a engenhosidade democrática,
Mas na simples ação de estar ali.
Existências em comum
Em tantos discursos de lábios
Uníssonos.
Singelo sorriso.
Palavras que se encaixavam
[agora encaixotadas],
Tão perfeitas no meu ego
E suaves no meu eixo...
Uma síntese de almas
Sem carimbos nem tarifas
Sem a engenhosidade democrática,
Mas na simples ação de estar ali.
Existências em comum
Em tantos discursos de lábios
Uníssonos.
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momento eurístico,
poema
Lúdica
É esquisito e não me é estranho,
Esta grande confusão de mim.
Já me desato neste embaraço
E sempre acabo aos nós, enfim...
Quão emaranhado o simples
Na mandíbula dos tigres,
Me devorando assim.
Tens dó, tens dó!
Não tenha dó de mim!
Não toque em dó menor
Minha canção em si.
Esta grande confusão de mim.
Já me desato neste embaraço
E sempre acabo aos nós, enfim...
Quão emaranhado o simples
Na mandíbula dos tigres,
Me devorando assim.
Tens dó, tens dó!
Não tenha dó de mim!
Não toque em dó menor
Minha canção em si.
Musical
Para o Maestro Rafael Roso Righini
Cantar com você
É roubar a inocência
É olhar tua essência
E encher-se da luz
Que os teus olhos atentos
Me revelam sorrindo
Ver teu céu tão sereno
De estrelas caindo
É ganhar os teus sonhos
Dedilhados nos sons
Que tuas mãos simplesmente
Dão magia aos tons
E a vida é mais bela
Com o teu violão
És criança brincando
Com o mundo na mão
Vidraça das Ilusões
A dita cuja espremeu
Cada veia de coração aberto
Gotejando estilhaços.
Para iniciar o cortejo do sangue
E seus rituais indecorosos.
Refletindo a simpatia que entorta
Coloriu os lábios gelatinosos
E pálidos da certeza morta.
Cada veia de coração aberto
Gotejando estilhaços.
Para iniciar o cortejo do sangue
E seus rituais indecorosos.
Refletindo a simpatia que entorta
Coloriu os lábios gelatinosos
E pálidos da certeza morta.
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vidraça das ilusões
O título depois a gente vê
[poema a 4 mãos, a partir das duas minhas e duas de Francisco Assis de Mello - o cara é bom! - não estava terminado, lapidado, enfim, ele vai me matar...]
Os argumentos
deveriam fluir por todos os poros
pelos buracos
de todas as chaves
pelos vasos de todas as plantas
deveriam fluir por todos os poros
pelos buracos
de todas as chaves
pelos vasos de todas as plantas
abrasar peles
e penas
incendiar escamas
estufar-se no interior fechado
do sistema hemal dos homens
e das minhocas
e penas
incendiar escamas
estufar-se no interior fechado
do sistema hemal dos homens
e das minhocas
e não se envergar
diante dos legalistas
sem coração
dos feudos políticos
da hipocrisia das igrejas
com suas velhotas inflexíveis
e seus camaleões paramentados
que não decidem se deus é justo ou é bom
mas pregam o medo
diante dos legalistas
sem coração
dos feudos políticos
da hipocrisia das igrejas
com suas velhotas inflexíveis
e seus camaleões paramentados
que não decidem se deus é justo ou é bom
mas pregam o medo
que jorrem das glândulas salivares
tal detergente
biodegradáveis
protejam os esmaltes dos dentes molares
do agrotóxico das praxes
protejam os esmaltes dos dentes molares
do agrotóxico das praxes
insípidas
transitem nas veias dos dedos anelares
vielas do cardíaco às carótidas
transitem nas veias dos dedos anelares
vielas do cardíaco às carótidas
ejaculem dos caules dos girassóis
das toalhas, dos lençóis
lubrifiquem as mandíbulas cerradas
as línguas coalhadas
das toalhas, dos lençóis
lubrifiquem as mandíbulas cerradas
as línguas coalhadas
esguichem das tetas das vacas
fermentem os miolos de pão
derretam as pontas de facas
as lascas da doce e tradicional arguição
fermentem os miolos de pão
derretam as pontas de facas
as lascas da doce e tradicional arguição
há muita calça de corte inglês
pra arriar
muito armário de burguês
pra bagunçar
cortar reciclar desfigurar o avatar
escorram por debaixo das saias sacrais
dos homens ovulando ideais
porque a gente fala o quer
escreve o que puder
e obrigatoriamente
não obriga ninguém a entender
Marcadores:
o título depois a gente vê,
poema
Unânime
Para Silvio Luis Scalco Bedani
Eterna é a solda dos
Cordões umbilicais,
Sem o cheiro de formol
Dos formais...
Nas permanentes graças
Da Unção das coisas natas
Cortemos as patéticas gravatas!
Alegria
Por onde passo eu queimo
Com calor brutal e juvenil.
Nada tem de fabuloso
Aquele que queima com o frio.
Pelos meus lábios sorrio,
Destravo as janelas das almas.
E ainda sinto arrepio
Ao desabotoar lágrimas calmas,
Que escorrem nos botões da faces
Durante os meus desenlaces.
Com calor brutal e juvenil.
Nada tem de fabuloso
Aquele que queima com o frio.
Pelos meus lábios sorrio,
Destravo as janelas das almas.
E ainda sinto arrepio
Ao desabotoar lágrimas calmas,
Que escorrem nos botões da faces
Durante os meus desenlaces.
...
Pôs as flores que mandei,
Num vaso vazio.
Acendeu a chama que lhe dei
Numa vela sem pavio.
E no rio da vida,
Da maneira que entrou,
Semeou, não colheu, partiu.
Este poema originou uma belíssima composição musical. Violão e voz insuperáveis. Vale muito a pena escutar e conhecer o trabalho musical deste compositor, que eu não contarei quem é. Só ouvindo aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=HGIJSBPmM7g
Num vaso vazio.
Acendeu a chama que lhe dei
Numa vela sem pavio.
E no rio da vida,
Da maneira que entrou,
Semeou, não colheu, partiu.
Este poema originou uma belíssima composição musical. Violão e voz insuperáveis. Vale muito a pena escutar e conhecer o trabalho musical deste compositor, que eu não contarei quem é. Só ouvindo aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=HGIJSBPmM7g
Gratidão
Para Everaldo Nogueira Jr
Ouço. É diálogo fascinante,
Entre um montante e um pacífico mestre.
Tateio um quê de doçura campestre,
Bem mais forte que feitiço e quebrante.
Vejo ainda, sempre assim, quero crer
Que tudo, tudo, cabe num instante.
Um fósforo riscado, sem saber,
Responsável pelo incêndio constante.
Como é que o teor do livro silvestre
Há de caber na estante terrestre?
Ah, mas no bolso do mestre: o montante!
Impoluta postura do saber,
Mineiro que garimpa diamante...
Entre um montante e um pacífico mestre.
Tateio um quê de doçura campestre,
Bem mais forte que feitiço e quebrante.
Vejo ainda, sempre assim, quero crer
Que tudo, tudo, cabe num instante.
Um fósforo riscado, sem saber,
Responsável pelo incêndio constante.
Como é que o teor do livro silvestre
Há de caber na estante terrestre?
Ah, mas no bolso do mestre: o montante!
Impoluta postura do saber,
Mineiro que garimpa diamante...
Percebe o que é mudo e o faz cantante.
Ode ao poeta
Para Norival Lemme Júnior
Reduto de irredutíveis
Virtudes potáveis.
Poderia deleitar-te nas horas
E ainda assim, não me cansaria.
Pois quanto mais desvendasse,
Mais profundamente
Ignorar desejaria.
És enigmática esfinge,
Cujo encanto colorido
Me envolve e me tinge.
Harmononiosamente
Coabitam em tua alma de cetim
Adocicadas imperfeições deliciosas
E a fascinação transcendente,
Plagiada das maravilhas supremas.
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ode ao poeta,
poema
Escape
Em meus poemas
Minha vida desemboca
Nesta lida
Cada lágrima contida
Toda vontade oprimida
Aquela saudade escondida
Jaz a decepção recolhida.
Expõe as (múltiplas) faces
Ocultas, de alternadas fases.
Tira-me o peso dos disfarces:
Uniformes obrigatórios, pesados.
Sou livre em meu poema pelado.
Minha vida desemboca
Nesta lida
Cada lágrima contida
Toda vontade oprimida
Aquela saudade escondida
Jaz a decepção recolhida.
Expõe as (múltiplas) faces
Ocultas, de alternadas fases.
Tira-me o peso dos disfarces:
Uniformes obrigatórios, pesados.
Sou livre em meu poema pelado.
Um pássaro
À Valéria Curuchi
A dinâmica do esforço,
Se não move a pedra crua,
Obriga a pedra pensar na própria
Condição de dura.
Pensante então,
Admira a performance alada:
- Não há gaiolas neste pássaro lindo!
A pedra não sabe cantar, assim na prática.
E a pedra chora...
Mas suas lágrimas passam a compor
Tudo o que o pássaro lhe inspirou.
Se não move a pedra crua,
Obriga a pedra pensar na própria
Condição de dura.
Pensante então,
Admira a performance alada:
- Não há gaiolas neste pássaro lindo!
A pedra não sabe cantar, assim na prática.
E a pedra chora...
Mas suas lágrimas passam a compor
Tudo o que o pássaro lhe inspirou.
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um pássaro
Pessoa
À Wilma Deléo Pessoa
Nas páginas dos Clássicos,
Nos miolos.
Lá estão minhas
Marginálias.
No riso morênico
[Que não me ouçam as orelhas]
De todos os livros.
Mas o amor é lingüística pura,
A distância, estrada dura...
E nessa ilustre parceirada
Onde pisas soberana,
Aponta aos briófitos do gueto
Sua própria revoada.
Aqui no peito
“Mano” deriva da irmandade
E o código pulsátil agradece
Nos miolos.
Lá estão minhas
Marginálias.
No riso morênico
[Que não me ouçam as orelhas]
De todos os livros.
Mas o amor é lingüística pura,
A distância, estrada dura...
E nessa ilustre parceirada
Onde pisas soberana,
Aponta aos briófitos do gueto
Sua própria revoada.
Aqui no peito
“Mano” deriva da irmandade
E o código pulsátil agradece
Por ser
Indelével, Pessoa.
Tear
Pregos na madeira
Para fiarmos juntos
Colchas quilométricas.
Desatando e trançando
A fiança
Numa dança a quatro mãos
Dos dedos
Nos fios
Finos, fibrosos...
Frágeis ou fortes,
Fartando a fresta
Dos frouxos retalhos
Que absorvem a estática
Que nos resta...
Ex-
O x da questão em prelo
É deixar o zelo em exceção,
Execrar exemplo e ação,
Faltar gelo ao tornozelo...
É exceder por excessos,
Calar intertextos,
Monopolizar eixos,
Desmentir nexos,
Contrair queixos,
Omitir contextos...
Ah, é o sexo durepox!
O enxerto no cós,
Metros de durex no pós,
Nas fotos, nos nossos: nós.
É deixar o zelo em exceção,
Execrar exemplo e ação,
Faltar gelo ao tornozelo...
É exceder por excessos,
Calar intertextos,
Monopolizar eixos,
Desmentir nexos,
Contrair queixos,
Omitir contextos...
Ah, é o sexo durepox!
O enxerto no cós,
Metros de durex no pós,
Nas fotos, nos nossos: nós.
Plano P
Para Ricardo Albuquerque
Entregue
Armas de guerrilha ao povo
Tomates e flores e muros e gozo
Grafe uma Revolução
Nas castas e gastas
Já sem as calças Graças...
Esfregue,
Da margem, o poema-ovo
No castigo velho e novo.
“Se ao invés de dois olhos...” - pensei,
“O governo tivesse dois cus...
Jogava as iscas ferventes de versos nus
Entre as pernas da Lei.”
Não Crise
Entoemos alegres e radiantes
A brusca sinfonia do consumo
Como é feliz o rebolar nas plumas
Volátil como as espumas.
E na depressão de fuzil,
Ingerindo Rivotril...
Rinite, sinusite, gastrite,
Calo na mão, artrite,
Excesso de bile e de apetite...
Premie a força braçal canina:
Uma cesta básica de ração
E um banho de criolina!
Made in Brasil
A fumaça de pedra e óleo
Doaram o espólio para a história
E cinco minutos de glória
Com queima da alheia memória.
A brusca sinfonia do consumo
Como é feliz o rebolar nas plumas
Volátil como as espumas.
E na depressão de fuzil,
Ingerindo Rivotril...
Rinite, sinusite, gastrite,
Calo na mão, artrite,
Excesso de bile e de apetite...
Premie a força braçal canina:
Uma cesta básica de ração
E um banho de criolina!
Made in Brasil
A fumaça de pedra e óleo
Doaram o espólio para a história
E cinco minutos de glória
Com queima da alheia memória.
Quem sabe?
Para Giuliano Martins
Um dia
Quem sabe
Todos os dias
Passarão a ser
Impassíveis
Um dia
Quem sabe
Todos os dias
Quem sabe
Todos os dias
Passarão a ser
Impassíveis
Um dia
Quem sabe
Todos os dias
Serão para sempre
E para sempre
Poder-te-ia me dizer
Nunca mais...
E para sempre
Poder-te-ia me dizer
Nunca mais...
Intimidade
As bocas fechadas
Não engolem mosquitos.
Contudo, não libertam
Borboletas.
Como os sem-conservantes,
Armazenados
Nas portas de geladeiras.
Ora, sempre muitas portas
Congelando realidades,
Decompondo segredos.
Eu que não gasto saliva
Nem meto a língua
Embocadura
Onde não permanecem os dentes.
Não engolem mosquitos.
Contudo, não libertam
Borboletas.
Como os sem-conservantes,
Armazenados
Nas portas de geladeiras.
Ora, sempre muitas portas
Congelando realidades,
Decompondo segredos.
Eu que não gasto saliva
Nem meto a língua
Embocadura
Onde não permanecem os dentes.
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intimidade,
poema
Manufatura
De mão em mão
A poesia enche
O teto:
Se ergue do asfalto.
De mão em mão
A poesia enche
O tato:
Exibe quadril esbelto.
De mão em mão
A poesia enche
A teta:
Para o bicho solto.
De mão em mão
A poesia enche
O papo, enche o saco
E só não enche o bolso do poeta.
A poesia enche
O teto:
Se ergue do asfalto.
De mão em mão
A poesia enche
O tato:
Exibe quadril esbelto.
De mão em mão
A poesia enche
A teta:
Para o bicho solto.
De mão em mão
A poesia enche
O papo, enche o saco
E só não enche o bolso do poeta.
Marcadores:
manufatura,
poema
Um cavaleiro medieval.
Para Diego Correa
Em seu cavalo marfimPercorre infintos mundos
Espero em silêncio rouco
A encharcar de lágrimas doces
Sua cartas de nanquim.
Ele não está voltando, meu Deus.
Ele está indo...
Léguas e léguas
Para longe de mim.
Recordo seu peito largo
Onde me perco, em sonhos,
Ardo.
A dor do destino, enfim.
Mas em todo pensamento
Remonto seu movimento
Como uma prece silenciosa.
E sei dos teus passos
Pois em cada caminho que traço
Andas sobre o meu coração.
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poema
Saúde
Para Francisco Assis de Mello (Chico)
Para os que gozam
De boa saúde
O espirro é um orgasmo nasal.
Às portas
Não, sei lá, sei bem
Ser comportada.
Sou uma semporta, desprovida
De fechaduras, de trincos.
Ouvindo, sentindo na cara,
Perdendo os brincos...
Nas portadas aos não bem-vindos
E quem me não quiser bem
Que se defenestre.
Ser comportada.
Sou uma semporta, desprovida
De fechaduras, de trincos.
Ouvindo, sentindo na cara,
Perdendo os brincos...
Nas portadas aos não bem-vindos
E quem me não quiser bem
Que se defenestre.
Verdade
“Papai me ensinou
Que as damas
Vão sempre na frente.
[-]
Talvez tenha aprendido
Cedo demais
Pra mudar.”
(Um tiozinho no elevador.)
Que as damas
Vão sempre na frente.
[-]
Talvez tenha aprendido
Cedo demais
Pra mudar.”
(Um tiozinho no elevador.)
Instintos
Espreito os vãos
De tudo que me esbarra.
Cheiro
E largo da boca o seio.
Tateio o não preenchido de tais espaços:
A saída para dentro do céu aberto,
A entrada para fora da minha jaula.
De tudo que me esbarra.
Cheiro
E largo da boca o seio.
Tateio o não preenchido de tais espaços:
A saída para dentro do céu aberto,
A entrada para fora da minha jaula.
Conselhos de mim a esmo
Se emsimesmar o erro é
Perpetuar a burrice,
Emsimesmarei o pensamento
Pra desnuclear de mim
O bicho de estima/ação jumento.
Então, a semostração
De eu sem ostracinismo
É uma semicópula
Entre a mentira e a verdade?
Quanta válvula
E perimetrar de alma...
Quanta inteligência me ovula!
Ah, mulher... não seja mula!
Não engula! Pula!
Não fique fula, não seja tola...
Se não quer mais passa a bola!
Perpetuar a burrice,
Emsimesmarei o pensamento
Pra desnuclear de mim
O bicho de estima/ação jumento.
Então, a semostração
De eu sem ostracinismo
É uma semicópula
Entre a mentira e a verdade?
Quanta válvula
E perimetrar de alma...
Quanta inteligência me ovula!
Ah, mulher... não seja mula!
Não engula! Pula!
Não fique fula, não seja tola...
Se não quer mais passa a bola!
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Doe Sangue
À Welton de Souza
Dreno o coágulo no pulso.
Enquanto sintetiza calado,
Decomponho na palavra
A fibra poética da saudade.
Causa mortis:
“Brutalmente despojada do original sentido”
E em esplendor renascem as pontes,
Erguem-se nações, sapos e montes...
Enfim, livre! O poema
Abandona o criador...
Expele a placenta num espasmo de dor!
Lancinante castração
Que transfere um núcleo.
E já na satisfação de indivíduo
Acena ao mundo.
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Presença
Nobre mendigo
De corpo vestido
Em suave nudez
Seu juízo embebido
Da mais sóbrea embreaguez
Legendou sem falar
O popular homem
Desconhecido
Influenciou a multidão
Ao passar despercebido
Apostou sem jogar
Perdeu sem ter tido
Partiu sem estar
E permaneceu esquecido
De corpo vestido
Em suave nudez
Seu juízo embebido
Da mais sóbrea embreaguez
Legendou sem falar
O popular homem
Desconhecido
Influenciou a multidão
Ao passar despercebido
Apostou sem jogar
Perdeu sem ter tido
Partiu sem estar
E permaneceu esquecido
Moral no plural

Se me permitem,
Peço licença:
Falar de Vinícius.
Peço licença:
Falar de Vinícius.
Morder-lhe a cadência,
Negar-lhe o divórcio,
Adornar o silício...
Meu miolo, meu lado,
Meu meio,
Meu vício.
Quão imoral é,
Quem não tem Moraes
Em si.
E não um tanto,
Mas muito sem tato
Quem vive sem Vinícius.
Meu miolo, meu lado,
Meu meio,
Meu vício.
Quão imoral é,
Quem não tem Moraes
Em si.
E não um tanto,
Mas muito sem tato
Quem vive sem Vinícius.
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Vinícius
Encontro
Cada eu, meu
Afina-se com variados eus,
De outros.
Mas perfeita será a melodia
Quando os meus
Encantarem-se
Com todos os eus de um,
Respectivamente.
Afina-se com variados eus,
De outros.
Mas perfeita será a melodia
Quando os meus
Encantarem-se
Com todos os eus de um,
Respectivamente.
Desapego
Desapego é horizonte
Ampliando espaços
É borracha
Apagando traços
Da decepção natural
Desvinculando laços
Solidão intencional
Esvaziando maços
Ampliando espaços
É borracha
Apagando traços
Da decepção natural
Desvinculando laços
Solidão intencional
Esvaziando maços
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