É preciso se libertar de toda experiência.
Dispensar a falsa reverência
Que jocosamente de etiqueta se travestia
Em normas CLT, ABNT e da Academia
Para a atrofia da massa muscular, cerebral.
É preciso morder e cheirar feito animal,
Abdicar regra e manual.
Ser corno e bebericar no literal.
Ser arquiteto de um prostíbulo ideal.
Não vá mijar na história pela ditadura
De linhas vazias molhadas no traçado de alvura.
Primeiro já deve ter sido torto
Para que não volte a nascer morto.
Suspender o paralelismo, o paunoculismo
Sem afagar o louco e suicida saudosismo.
Comece dividindo tudo em capítulos infinitos.
Mas que não impliquem na chatice
De um apêndice ou de um índice.
Para eles (os momentos): escolha títulos bonitos.
Faça com que o glossário
Para não ser desmerecido
Tenha que ser sempre lido
Como as contas de um rosário.
Como as louças do armário.
Como o orçamento diário.
As ilustrações precisam envelhecer,
Contendo em cada rodapé flutuante
Citações acomodadas em risos audíveis.
A introdução não precisa se estender
Pode ser breve, num rompante.
Vendo o prólogo assoviar canções inesquecíveis.
Terá, de certo, mudas edições comentadas.
Traduzidas, porém, por duas línguas juramentadas.
Deve ser delicadamente impresso
Em nobre e não perecível gramatura.
Conter arabescos viris ao invés de brochura.
A escrita, de um estilo devasso e avesso,
Forjada na saliva das madrugadas,
Com cheiro de nanquim e letras douradas.
Ás vezes pode ser julgado pela capa
Como se fosse cara, contanto que seja dura.
Para conservar da carne o que escapa
Do conteúdo, em sua forma mais pura.
E se te importar um final feliz,
Digo que pode ser lido de trás pra frente
Qualquer bom e clássico romance.
Veja bem. Agora o mais importante:
Dê a ele a primeira e única chance
De ser inteiro e completamente
Impublicável.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Detergere
Escoei
Feito espuma
De palavras não ditas
Pelo ralo da sua
Indecisão.
Íntegra e desintegrada
Pela polaridade
Deste teu profilático
E silencioso, des(p)ejo.
Feito espuma
De palavras não ditas
Pelo ralo da sua
Indecisão.
Íntegra e desintegrada
Pela polaridade
Deste teu profilático
E silencioso, des(p)ejo.
Temporal
A humilde idade escapa em gota.
E se instalando na parede decorada,
O oco de toda tinta, vai,
Do cimento, se avolumando em náuseas.
Amolecida e silenciosa, desbota.
A passagem líquida
Toda sôfrega e compassada
Rompe sem mesuras róseas
A rígida clausura do tempo...
E se instalando na parede decorada,
O oco de toda tinta, vai,
Do cimento, se avolumando em náuseas.
Amolecida e silenciosa, desbota.
A passagem líquida
Toda sôfrega e compassada
Rompe sem mesuras róseas
A rígida clausura do tempo...
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